Temas diversos. Observar, pensar, sentir, fazer crítica construtiva e refletir sobre tudo que o mundo e a própria vida nos traz - é o meu propósito. Um pequeno espaço para uma visão subjetiva, talvez impregnada de utopia, mas, certamente, repleta de perguntas, questionamentos, dúvidas e buscas, que norteiam a vida de muitas pessoas nos dias de hoje.

As perguntas sobre a existência e a vida humana, sobre a fé, a Bíblia, a religião, a Igreja (sobretudo a Igreja Católica) e sobre a sociedade em que vivemos – me ajudam a buscar uma compreensão melhor desses assuntos, com a qual eu me identifico. Nessa busca, encontrando as melhores interpretações, análises e colocações – faço questão para compartilhá-las com os visitantes desta página.

Dedico este Blog de modo especial a todos os adolescentes e jovens cuja vida está cheia de indagações.
"Navegar em mar aberto, vivendo em graça ou não, inteiramente no poder de Deus..." (Soren Kierkegaard)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Todas as religiões são igualmente boas?

Quando pensamos na quantidade de religiões que existem no mundo inevitavelmente surge a pergunta:  todas essas religiões são a mesma coisa?  A pergunta tem  sentido.  Diante de tantas afirmações e conceitos que elas apresentam, e não raras vezes completamente opostas, não é possível que a resposta seja positiva.

A tolerância religiosa que compreende o respeito mútuo, o conhecimento mútuo e a coexistência pacífica de todos – é uma  coisa fundamental.  Isso, porém, não nega a necessidade  e  o direito de cada pessoa  de  saber  como são essas religiões e, com isso, poder elaborar a sua  opinião sobre elas.

Na verdade, o que nos  interessa nessas curtas reflexões é responder a uma questão fundamental  para    todo ser humano  que busca um caminho certo, que o leve ao encontro com Deus.   Esta questão se resume numa  pergunta:  Se todas as religiões  não são igualmente boas, então qual delas  é a mais certa, e por quê?

Para os cristãos não há dúvida  de que a fé cristã se diferencia de todas as outras religiões e por isso reivindicam um tratamento distinto .  Qual é essa reivindicação  do cristianismo?
Sobre isso será a próxima postagem.
WCejnog

O texto abaixo fala mais do tema das outras religiões:




(5)

(...)  Centenas de nomes santos, cultos, templos, milhares de respostas e concepções – desta forma se apresentam para nós as religiões. Constatamos logo, que muitas delas, em suas afirmações e teses são contraditórias entre si.  Qual, então, é verdadeira? “Todas dizem que possuem a verdade, em qual delas, devo acreditar?” Eis a pergunta que freqüentemente podemos ouvir. 


Não é para estranhar que muitas pessoas totalmente param de procurar chegando a conclusão que “cada um deve se salvar por si mesmo e do seu jeito”, pois todos temos, na verdade,  um único Deus. Ou então, “não importa em que se acredita, importante que se tenha a fé”. Justamente esta última postura é própria a muitas pessoas de hoje, mas também era encontrada em  antigas religiões pagãs, e numa forma semelhante também no budismo.

Para formular melhor o problema, vamos pensar nas seguintes perguntas:  Será que o cristianismo constitui também apenas uma das formas de adorar Deus e da religiosidade, ou ocupa um lugar especial? Será que a religião cristã também é apenas uma manifestação do esforço humano, mesmo muito sublime, de se comunicar com Deus?

Se quisermos falar sobre este tema, já com antecedência devemos rejeitar toda a arrogância em relação  às demais convicções. Precisamos  respeitar cada esforço que leva a adorar Deus, de acordo com o entendimento pessoal da pessoa;  mesmo porque essa pessoa deseja servir a Deus com toda a sua vontade. No sentido subjetivo, o zelo religioso de um não-cristão muitas vezes pode ser mais  intensiva que o de um cristão. Tudo isso  exige o nosso respeito.

Queremos aqui, porém, falar da religião no sentido objetivo, isto é,  como a religião se pronuncia sobre Deus e sobre o homem. Neste caso precisamos afirmar:  sem dúvida em cada religião existem partículas da verdade.
 
Porém, mesmo uma análise superficial nos mostra que nem  todas as declarações que as religiões formulam sobre Deus, que as vezes são até contraditórias, podem ser  verdadeiras. Ou Deus é um, ou temos vários deuses; ou Deus é todo-poderoso, ou Ele mesmo depende das indefinidas forças ocultas do destino; ou Deus é um ser, que comanda o universo através da sua razão, ou é uma força impessoal, que domina tudo e se funde com o mundo, numa coisa só.  As duas  partes dessas afirmações nunca poderão ser verdadeiras. Nem tudo o que é “religioso”, só por isso deve ser bom e verdadeiro. Também  aqui  encontramos – como ensina a história – os enganos e erros:  basta mencionar  os cultos onde se sacrificava as pessoas, ou pensar sobre vacas sagradas ...  


Deificação da natureza

Ao analisar a História das Religiões constatamos a existência de um lento processo de amadurecimento, no qual o conceito de Deus elaborado pelo homem torna-se cada vez mais claro e espiritual. Por isso ninguém estranha que as religiões das épocas remotas e também as religiões contemporâneas dos países não desenvolvidos, tiveram e ainda têm uma concepção muito imperfeita sobre Deus. Não poucas vezes nessas religiões identifica-se Deus com as forças da natureza. É compreensível que os homens que sentem-se totalmente dependentes dessas forças ficam inclinados a adorar com tremor o sol, relâmpagos, fogo, mar e estrelas como deuses, oferecendo-lhes freqüentes sacrifícios.

Deus- apenas um super-homem?

Nos degraus mais altos desse processo  as experiências da vida humana  tornavam-se objeto da adoração: amor e morte, destino e vingança. Aqui deus é moldado à semelhança do homem.  Enfim, os deuses deste tipo são os seres humanos colocados no céu, com todas as fraquezas e imperfeições.

Quando as imagens dos deuses são feitos na ”medida” do homem, ai também a imagem desse homem aparece imperfeito. O ser humano nesta situação deve sentir-se ainda mais miserável  do que  é na realidade.   Assim sendo, todas as religiões deste tipo têm uma coisa em comum: escravizam o homem  que  torna-se um “nada” , que depende totalmente dos deuses.       O sentimento humano predominante nessas religiões é o medo.

Com certeza também existem verdades profundas nessas religiões. Elas tiveram uma função importante naquelas épocas culturais. Não se duvida que os seus adeptos possuíam freqüentemente  uma devoção sincera e profunda. Apesar disso, a sua concepção de Deus e do homem é fragmentada  e errônea.

Esse tipo de religião podia ser a causar que não poucas pessoas consideram a religião como algo que serve somente para os fracos, que escraviza o ser humano. Essas religiões realmente faziam isso.  Hoje, nós também não podemos simpatizar com afirmações deste tipo.

Podemos um pouco adiantar aqui, que o cristianismo é uma missão Divina totalmente  diferente, “É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou” (Gal 5, 1).

Devemos, no entanto,  reconhecer que os próprios  cristãos não poucas vezes deformam  essa missão Divina.  Pois se também eles, de acordo com o seu entendimento da fé, ficam diante de Deus tomados de temor servil e  entendem a fé como apenas a soma de preceitos e proibições – ai o seu cristianismo é totalmente mal concebido. Não podemos negar que muitos cristãos cultivam justamente esse tipo de fé repleta de medo e que por isso,  nós próprios,  às vezes, colocamos o cristianismo  no mesmo nível das religiões mencionadas acima e por esta causa muitos o podem rejeitar do mesmo modo como  rejeitam essas outras religiões. (...)

(KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p. 50-52)*

Continua...

_____________________
*Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

********************

sábado, 28 de janeiro de 2012

O que é tolerância religiosa? Somos tolerantes?


Hoje em dia muito se fala e discute sobre o tema da  tolerância, em todos os seus sentidos. E isso é muito positivo. A sociedade que quer evoluir, além de assegurar  - no espírito da verdadeira democracia  - a todos os seus cidadãos os mesmos direitos e deveres,  precisa que os mesmos cidadãos respeitem-se mutuamente, aprendendo e demonstrando na prática o  respeito e a tolerância em todos os domínios. Na verdade, o sucesso de alcançar um futuro promissor, justo e tranqüilo para todos os cidadãos depende disso.  Não se pode construir a paz duradoura e segura com o uso da força, através dos meios policiais e militares, e da violência (se todos respeitassem ao outro – não haveria  ladrões, homicidas, corruptos..!).  Ao contrário – o uso da força freqüentemente  gera ainda mais violência. O caminho para a  paz e a  esperança de um futuro melhor passa, com toda a certeza - pelo coração de cada cidadão.

 “A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.” (Mahatma Gandhi)

Como  escrevi  numa das postagem  anteriores, o mais importante quando se fala da  tolerância  é que ela deve ser mútua. A sociedade deve fazer esforços para que isso fique muito claro para todos os cidadãos (os meios de Comunicação e Educação deveriam servir para isso como instrumentos eficientes!). Como disse o Gandhi: quando tiver a tolerância mútua, ela se transformará  em “ lei de ouro do comportamento”.  Numa sociedade democrática, p. ex. é de suprema importância que se tolere e que se respeite  as minorias e garanta os seus direitos.  Isso é muito importante e suficiente para garantir a paz e a vida.  Mas - e isso precisa ser dito claramente - o direito de ser e viver em paz deve ser respeitado e assegurado para todas as minorias, porém, isso jamais lhes dá o  direito de querer impor as suas concepções à maioria. Quem precisa e quer ser respeitado e aceito, deve também respeitar os outros.  Esta é a verdade.

O mesmo se refere também à tolerância religiosa. Todos nós, sem exceções, precisamos aprender a ter atitudes respeitosas diante das confissões de fé diferentes da nossa, e saber conviver com as pessoas que são adeptas de outras religiões.  Mas, também, isso quer dizer que a tolerância  não é o mesmo que a indiferença.  Ora,  quando não prestamos  atenção ou quando refutamos os valores do próximo – as nossas atitudes não são de tolerância. A tolerância para ser autêntica, pressupõe o respeito mútuo e, acima de tudo, o entendimento mútuo. Por outras palavras, a tolerância religiosa  (e qualquer outro tipo de tolerância)  de uma pessoa são as suas atitudes de respeito e compreensão  para com aquilo que é diferente dos seus valores.

É bom também lembrar que a tolerância como capacidade de ouvir e aceitar os outros, compreendendo o valor das diversas formas de entender a vida, nunca pode atentar contra os direitos das outras pessoas. Pode acontecer, por exemplo, que alguém tenha valores impregnados de preconceito racial ou religioso e visam o extermínio do próximo. Neste caso não significa que uma postura deste tipo possa ser tolerada.

Uma pergunta para cada um de nós: somos tolerantes?

WCejnog

O texto abaixo fala mais sobre a tolerância religiosa:



(4) 

(...)  A liberdade religiosa é um dos fundamentais direitos de cada ser humano. Cada um deve ter assegurada a possibilidade de exercer as suas práticas religiosas de forma e modo que considera certas e adequadas, e isso também inclui a forma pública e comunitária. Por isso não se pode proibir e atrapalhar a ninguém viver de acordo  com as suas convicções religiosas.
  
Por outro lado – não é permitido também  obrigar alguém a seguir determinadas práticas religiosas. Esta liberdade baseia-se na dignidade da pessoa, o assunto que foi conhecido melhor e aprofundado com decorrer dos séculos. Não podemos negar que nesse campo a própria Igreja Católica nem sempre teve este  pensamento  e a conduta  adequada. O Concílio Vaticano II claramente expressava pesar em relação a esse passado, que não foi condizente com o Evangelho.

A liberdade de religião não significa, no entanto, que ser ou não ser pessoa religiosa deve ser deixado unicamente por conta da  ilimitada vontade do homem. Este, como criatura, vive na presença de Deus, que é uma  relação analógica à dos filhos com os pais: transforma-se o respeito, amor e obediência em dever natural. Quando alguém reconhece Deus como seu  Senhor e Criador, expressará isso também na sua vida, isto é, vai servir a Deus. Justamente aqui começam, no entanto, as restrições dos homens.

Muitas vezes eles aceitam a religião, para – deste modo – satisfazer as “necessidades religiosas”, ou como a base moral para a edificação e consolo do ser humano. Quem assim entende a religião, esse só vai a igreja quando alguma coisa o perturba ou quando o desespero o obriga a rezar.  Nos outros momentos da sua vida ele disse: “as celebrações na igreja não me convencem”, “a oração nada me acrescenta”.  Neste caso a relação com Deus  fica dependendo do sentimento e até do humor da pessoa. É fácil notar que aqui a ordem fica invertida, e o homem ocupa o lugar que é de Deus. E isso é algo ostensivamente anti-religioso.  Na religião, porém, em primeiro lugar sempre trata-se de Deus, e, logicamente,  em conseqüência toda a vida  do ser humano fica impregnada com o conteúdo religioso. (...)

(KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p.49)*

Continua...
___________________
*Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

********************

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Conexão com Deus - a Religião é isto!

A palavra religião vem do termo latino "Re-Ligare", que significa "religação". Trata-se aqui  da “abertura” do ser humano para o divino,  onde o homem está buscando a restabelecer o  contato com Deus.  Os jovens de hoje diriam:  a religião é “conectar-se” novamente com Deus. Religar o homem a Deus, aí está a razão pela qual a religião existe.

Assim como  a arte, a filosofia e a ciência, também a religião faz parte  inseparável  da cultura humana. Ela existe – e podemos dizer isso com toda a certeza - desde que  existe o ser humano,  e é a expressão da sua insaciável sede da felicidade total,  definitiva e eterna.


“As religiões mundiais foram os pilares das culturas do mundo, de forma que, se as eliminamos, os arcos caem e o edifício se derruba”.
(Christopher Dawson, o filósofo da história)

Não faltou na história da humanidade momentos, em que um ou outro filósofo ou pensador  ateísta , ou algumas correntes filosóficas que negam  a existência de Deus,  proclamaram a chegada do fim da religião e da fé.  Também em nossos tempos existem  vozes parecidas  e tem gente travando combate feroz contra  a fé  em Deus e a religião.  Mas o que vemos  é  que, apesar de todo o progresso e o avanço científico, o fenômeno religioso sobrevive e cresce, desafiando previsões que anunciavam  seu fim.  A grande maioria da humanidade professa alguma crença religiosa direta ou indiretamente e a religião continua presente no seu seio. E mais, continua  promovendo  diversas  campanhas,  inspirando vários movimentos humanos e mantendo suas posições e status político e social. 

Como sentimento consciente de dependência ou submissão que liga a criatura humana ao Criador, a religião certamente só deixará de existir, quando o ”coração do homem repousar em Deus” – segundo as palavras de Santo Agostinho.
WCejnog

O texto abaixo fala assim sobre a religião: 


(3)

(...) Existe uma expressão popular: “O homem tem que ter a religião”. Se pensarmos um pouco sobre isso, veremos que com o conceito da religião são ligadas as mais diversas imaginações. Para uns a religião é uma questão de emoções, de uma exaltação interior, que principalmente se manifesta nos momentos festivos. Para outros, significa ela um conjunto de mandamentos e proibições. Para muitos, a  religião consiste em confessar uma doutrina. Para outros ainda, significa um modelo de vida baseado numa relação de amor e caridade em relação ao próximo, onde  não deve se fazer nenhum mal para ninguém. Tudo isso não é, no entanto, o mais essencial. Na religião, em princípio, no primeiro lugar não se trata do ser humano, mas de Deus. A religião é um livre e consciente ‘dirigir-se’ do ser humano para Deus.
 
As religiões existem desde o início da humanidade. Já o antigo escritor romano Cícero  afirmava que não existe nenhuma nação sem religião. Esta opinião ainda hoje é verdadeira.

Teve momentos, no passado, que se afirmava que nas ilhas  distantes existissem as tribos sem noção de conceito de Deus e sem religião.  Depois se soube, no entanto, que essas tribos nativos tinham  uma religião, apenas era muito secreta e oculta. Somente mais tarde ainda, quando os  pesquisadores europeus conseguiram conquistar a confiança dessas  tribos, aqueles homens  revelaram-lhes  as suas mais íntimas e sagradas idéias que tinham sobre Deus, e  também os detalhes dos ritos e cerimônias.

Até mesmo as perseguições não conseguiram nunca destruir a religião. Mesmo uma pessoa a mais superficial sempre se depara com a pergunta sobre Deus. O fato de muita gente, nas últimas décadas, abandonou o cristianismo foi provocado  pela busca de uma religião substituta, provando com isso que o homem não se viu livre de Deus. Até mesmo os adversários da religião freqüentemente revelam com a sua postura agressiva, que intimamente não resolveram ainda “isto” o que  eles combatem.

Como podemos explicar o fato que a religião se espalha universalmente? Fica claro que a necessidade de se entender com Deus tem a sua base na natureza humana. No íntimo da sua vida o ser humano tem esse sentimento que de Deus saiu e a Ele voltará.  As  palavras de Santo Agostinho são muito atuais: “ É inquieto o meu coração, enquanto não repousar em Ti, meu Senhor”.  Como os planetas circulam em  volta do sol, assim a nossa razão movimenta-se  em volta do seu centro – em volta de Deus. Se  tirarmos esse centro, tudo vai se dissipar, muitas questões  continuarão sendo  enigma e  dúvidas.

O fato de muitas religiões

Se, por um lado, a consciência da existência de Deus era e continua sendo  a mesma e uniforme nos seres humanos, por outro,  as concepções sobre Deus e as formas de culto a Deus são muito diversas. São tão diversas, como diferentes são os homens e as suas capacidades, o grau de instrução, nacionalidade e meio cultural. Sim, porque apesar de se esforçar ao máximo a mente humana  não tem condições para ter uma imagem nítida de Deus. Nenhuma das suas concepções pode ser fiel retrato da plena realidade de Deus. Isso explica o porque da existência de muitas e diferentes  religiões.

Mesmo se as manifestações das religiões possam ser as mais divergentes, todas elas tem em comum a consciência de que o homem deve se sempre dirigir a Deus e se esforçar para adorá-lo de maneira digna, conduzindo a sua vida de acordo com esses princípios.

É por isso que o Concílio Vaticano II afirmou que a Igreja “não rejeita nada daquilo, que nessas religiões é verdadeiro e santo”. (...)

(KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p.47-49)*

Continua...

_______________________ 

*Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

***************************

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A questão do ateísmo – vale a pena saber!


Continuando a reflexão sobre a religião e o ateísmo, é importante tentar  entender as diversas posturas e atitudes, que levam as pessoas a se declararem ateístas. Essas afirmações e decisões podem  ter  várias causas. Quanto melhor entendermos o processo de formação dessas posturas, mais  facilidade teremos para entender as pessoas convictas do seu ateísmo e, com certeza, estaremos respeitando mais as suas decisões.

Por outro lado, observamos hoje que em nome da liberdade e da  democracia ficaram muito mais intensas as tentativas de influenciar a sociedade toda com as teses ateístas. Existe, parece, um interesse peculiar para infiltrar na educação das crianças e jovens,  e na vida do povo de modo geral,  os  conteúdos dessa doutrina.  Por que será? Como entender isso?   Quem tem interesses para promover este processo?
 
A nossa constituição garante a igualdade de direitos e de obrigações para todos os cidadãos. Por conseguinte, não há dúvida que o direito da maioria não pode ser ‘atropelado’ pelos direitos de minorias – é a questão de lógica democrática. “Vox populi – Vox Dei!” – falavam os antigos gregos, pais da democracia.  E “Vox populi” – é a voz da maioria do povo.  É de suprema importância que exista a tolerância e que se respeite  as minorias e garanta os seus direitos.  Isso é suficiente para garantir a paz e a vida. Mas jamais  lhes dá o  direito de tentar impor as  suas concepções à maioria.  A tolerância, para ser plena,  também inclui  este lado.

Surgem outras perguntas:  É isso mesmo que a maioria da sociedade quer, ou não está se dando conta do que está se tentando fazer com ela?  Que tipo de democracia nos temos?  Existe espaço para discutir essa questão?   

Ao meu ver , todas estas perguntas deveriam ser discutidas abertamente  na sociedade. E mais: o tempo urge!
WCejnog

O texto abaixo (de Ferdinand Krenzer)  traz mais detalhes para esta reflexão, mostrando – em síntese – alguns  variantes  do  ateísmo :


(2)

Deus não tem nada para dizer

(...) Hoje, sem dúvida, existem muitos assim chamados ateístas práticos. Para eles também falta a convicção, porque quase  sempre eles nem se ocupam com a questão da fé. Alguns, até, perguntados se existe Deus,  logo responderiam: “Sim, é claro”. Talvez pertençam a uma Igreja cristã, mas na prática, na sua vida, Deus não tem nada para lhes dizer – eles definitivamente não olham para Ele. Esses homens e mulheres são pessoas que foram batizadas, são cristãos, mas não valorizam a sua fé  e não dão a ela  nenhuma importância. Assim, eles deixam um exemplo de fé sem valor e geram  nos outros a oposição em relação a religião. Também (já falamos anteriormente) existem aqueles, que rejeitam caricaturas de Deus ou conceitos que O deformam.

Agora vamos falar dos “ateístas de convicção”, que seriamente se ocuparam com este problema e chegaram a conclusão que ou “sobre Deus não se consegue saber nada” (agnosticismo), ou que Ele não pode “existir” (o ateísmo próprio). As pessoas que pensam assim e vivem assim encontram-se, freqüentemente,  no alto nível espiritual e ético;  precisam ser, portanto, tratadas com toda a seriedade e respeito.

Nada podemos dizer sobre Deus

Agnosticismo afirma que é necessário desistir de Deus, porque não podemos conhecê-lo com toda certeza. Baseia se, quase sempre, sobre a “ciência”, entendida como ciências naturais. Porque a existência de Deus não pode ser provada com os métodos experimentais, então Ele não existe.  Perguntamos: será que isso é uma afirmação científica? Da parte das ciências naturais não existe prova para existência de Deus. Mas também, do mesmo jeito, não temos nenhuma prova científica que Deus não pode existir. Sim, existem – como já foi dito – alguns caminhos do conhecimento humano, que podem nos conduzir a Deus.

Ateísmo em nome do “bom senso”

Muitas pessoas  afirmam que o grande progresso no campo do conhecimento é suficiente para descartar a existência de Deus, assim como esclarecer  o mundo, a natureza e a vida, é possível sem a necessidade de reconhecê-lo.

Também por isso  se afirma que, em nome da ciência, como também em nome do progresso e da técnica não se pode mais admitir a existência de um “ser superior”. Esta afirmação estava no moda sobretudo no início do sec. XX, quando começou um forte desenvolvimento intelectual. Durante o século passado a humanidade alcançou inúmeras descobertas e invenções. Mas a primeira onda de histeria, provocada pela arrogância, já passou. Quanto mais a razão humana penetra os mistérios da natureza, tanto mais está sentindo que a penosa possibilidade do homem em conhecer e  decifrar as leis da natureza, que levou milhares e milhares de anos, fica muito longe da própria criação e das leis estabelecidas. O lugar da arrogante afirmativa: “Ultrapassaremos as obras Divinas”, na vida de muitos cientistas, novamente começa a ocupar o reconhecimento que também são criaturas e limitados.

O ateísmo por amor ao mundo

Na base dessa visão do mundo também se encontra o progresso, que entregou as forças da natureza e do mundo  à disposição do homem.  Não surpreende, portanto, que as pessoas que pensam assim, fiquem fascinadas unicamente com as suas possibilidades e com o seu mundo, do qual gostariam de fazer o paraíso.  Não sobra aqui quase nenhum lugar para Deus. Sim, muitos ficam convencidos de que Deus e a ligação com Ele colocam o homem contra os seus atuais e terrestres desafios.   A religião, neste caso, significa para eles a mesma coisa que a fuga do mundo e a negação dele.  

Aqui precisamos  reconhecer que a fé mal entendida  e o conceito falso da religião tornam-se  inimigos do cristianismo. As afirmações de que a religião cristã atrapalha e até nega o mundo  constantemente alimentavam, e ainda alimentam,  esse tipo de ateísmo.  Onde as pessoas crentes declaram que se encontram mais perto de Deus, e  que não se relacionam com o mundo “podre”; onde  se fecham diante de todo progresso, ao mesmo tempo negligenciando as suas tarefas na vida profissional e social  e as suas obrigações frente pessoas necessitadas e excluídas,  ali contribuem elas para a formação desse tipo de entendimento errado e avesso da religião.
O trabalho e esforço humano que visam a melhoria das condições da nossa vida, correspondem ao plano Divino. Nas primeiras páginas da Bíblia lemos:  "Frutificai, disse Deus, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a”(Gen 1, 28.)  Não é sem a terra, mas com a terra que o homem poderá realizar a missão que recebeu de Deus.

O ateísmo por amor à humanidade

O ser humano que encontra Deus percebe claramente que Deus  tem o direito sobre ele. Isto, porém, contraria o seu orgulho e a sua tendência à ser independente. “ Se existe Deus, o homem é ninguém” – fala Sartre.  Para esse tipo de gente a religião não significa nada mais do que  a escravidão, submissão e falta de liberdade do ser humano. “Deus é uma parede, que nos esconde o homem”. Ele coloca o homem contra a si mesmo e contra os outros, porque  quer ter o homem para si. Ou Ele, ou nós – alguém  precisa recuar. Por isso a religião, na visão dessas pessoas, constitui somente “ópio do povo”.

O lugar de serviço ao Deus deveria ser ocupado por serviço ao homem. Somente  assim, quando pararmos de nos interessar com Deus, conseguiremos nos dedicar e sacrificar para a humanidade. A Deus pode se procurar somente no homem e naquilo que é humano (ateísmo como humanismo). Basta ser um homem honesto. Assim, mais ou menos, soam os argumentos construídos em forma de slogan.

Podemos ver que as imaginações muito simples e ingênuas sobre Deus realmente escravizavam e ainda estão escravizando o ser humano. Mas, será que se pode  dizer isso sobre a fé cristã, que nos mostra Deus como alguém que para nós, seres humanos, tornou-se homem?  Uma resposta para a essa pergunta  estaremos construindo mais adiante. O próprio Cristo nos disse claramente sobre o que para ele era essencial: “Amarás o Senhor teu Deus. (...). Este é o maior e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 34 ).  Como vemos, é justamente a fé cristã em Deus , por sua essência, que exige do homem a dedicação e o serviço ao seu próximo, do jeito que a Bíblia pode afirmar: “Quem não ama, não conhece Deus" (1 Jo 4,8).

O maior número de questionamentos contra Deus o homem de hoje levanta a partir do problema do sofrimento. (...)  A história da humanidade com o seu sangue e lágrimas, com os absurdos e injustiças até parece um contínuo protesto contra Deus: “ Como Deus pode permitir que isso tudo aconteça?  Tudo transcorre como se Ele não existisse. Deus morreu ou fica calado. Se existisse, Ele  poderia, aliás Ele deveria mudar esse quadro, já que Ele é o todo-poderoso. E se permite que as coisas assim aconteçam, então Ele próprio também é culpado dessa toda miséria.  Se Deus fica tão indiferente em relação ao mundo, então nós, os seres humanos precisamos  arregaçar as mangas e assumir a obra para melhorar este mundo sem Ele”.

Pedaçinhos  dessas várias formas de ateísmo encontram-se em todos nós. Parecidas perguntas e  dificuldades surgem também para  as  pessoas que crêem em Deus, se – obviamente – não vivem elas com os olhos vedados.  Dúvidas e descrença possuem valor também para o homem crente: o ateísmo arranca-o do estado de paz aparente e felicidade ilusória. Deste jeito a descrença obriga essa pessoa a revisar  e controlar as suas imaginações sobre Deus, ligando-as  às necessidades do tempo. A nossa fé só é forte e madura, quando luta contra a descrença. A maioria dos homens e mulheres, atravessa em sua vida,  mais cedo ou mais tarde, momentos de descrença, o que, em conseqüência, contribui para fortalecer a própria fé.

Por outro lado – não convence, de jeito nenhum, o argumento de que precisa ser ateísta para servir ao ser humano e para afirmar o progresso, o mundo, e a tecnologia. (...)

(KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p.44-47)*

Continua ...
_________________________
*Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

******************

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A religião e o ateísmo


Nesta e nas próximas postagens o assunto será sobre a religião e o ateísmo.  É muito interessante poder abordar essa temática, que nos dias de hoje se torna cada vez mais comum, encontrando muita gente despreparada  e quase que “pegando de surpresa” os menos avisados. Se bem olharmos para a nossa sociedade, que na sua maioria se declara religiosa, podemos  ver claramente como as famílias estão desorientadas, as pessoas confusas e sem saber se posicionar dentro de uma discussão sobre o ateísmo e religião, a não ser fugindo da polêmica e fechando-se numa religião individualista e intimista, onde o resto não interessa. 

Muitos dos nossos jovens, sobretudo secundaristas e principalmente os que  ingressam na vida universitária  - sofrem impacto  de  opiniões e slogans anti-religiosos, e ficam submetidos à forte  influência  ateísta,  que freqüentemente  predomina  nesses ambientes.   Representando a ciência e progresso, e  possuindo o poder vindo dos cargos lhes confiados de serem formadores de novos cidadãos, não poucos docentes se aproveitam desse contexto para disseminar nos jovens primeiramente as dúvidas, e depois infiltrando neles as afirmações contrárias à religião e a fé.  Dispondo de tempo e “revestidos” de respeito que os jovens, na sua grande maioria, têm para com os seus mestres, muitos professores  universitários  (que trabalham nas instituições seculares ou confessionais)  tentam alicerçar idéias ateístas nos seus alunos, como se isso realmente fosse a única e absoluta base para afirmação do progresso científico.  Essa é a triste realidade. Sabemos que muitas Universidades são consideradas, quase que unanimemente, como redutos do ateísmo e agnosticismo.

 As perguntas saltam aos meus olhos:  Será que isso é certo?    Será que algumas pessoas,  sobretudo aquelas munidas de um certo “poder maior” quando em relação aos jovens,  podem  atrelar impunemente as suas convicções pessoais às disciplinas que lhes foram confiadas para ensinar, praticando uma forma de “doutrinação” ateísta?   São as perguntas que não devem nos deixar em paz. Sobretudo todos nós, que somos cristãos.  Pelo contrário, devem  nos despertar para uma reflexão crítica, e se tornar a base para exigirmos  o respeito pelos  direitos de todos os  cidadãos.

Aliás, fica muito claro para mim como o conceito de democracia está sendo deturpado no mundo atual.  A democracia, como diz o dicionário, deveria ser – em tese -  a forma do governo na qual o poder  emana do povo. Sendo assim,  a vontade da maioria do povo não só deveria ser respeitada mas também realizada. Deveria ser também garantido o respeito e a tolerância para com todas as minorias e todos os cidadãos, assegurando todos os seus direitos e deveres.  É o fundamento para existir a paz!   O que freqüentemente assistimos hoje,  e isso no só no Brasil mas no mundo todo, que na prática, debaixo de um “véu” da democracia, as  ideias de algumas pessoas ou entidades ditas representantes de “minorias”, conseguem apoderar-se do poder de impor a toda a sociedade as suas idéias e projetos.  Como é que elas conseguem fazer isso?  Com certeza a democracia não é isso. 

Resumindo, considero de extrema importância para toda a sociedade, e  principalmente para todas as pessoas que se preocupam com o futuro desta nação, com o futuro dos seus  filhos, netos e bisnetos, e aquelas cuja missão deveria ser o anúncio da vontade de Deus  para que “todos tenham a vida em abundância” - que se discuta esses assuntos.  Só assim poderá se assegurar a justiça e verdadeira tolerância, e, com isso, o futuro melhor para a humanidade.
WCejnog

O texto abaixo traz um pouco mais detalhes para a nossa reflexão:


(1)
 
(...) Desde  que existe o gênero humano, o homem sempre  teve algum conceito sobre Deus, o que trazia algumas conseqüências: ele era religioso, isto é, tentava adorar Deus, levando a vida de acordo com o que reconhecia como vontade d’Ele. Desse “Sim”, quando se trata de Deus,  nasce a religião.

Sabemos, no entanto, que esse “Sim”, não  se impõe ao  ser humano. Muitos fatos, vivências e reflexões  estão mais a favor – como parece – da inexistência de Deus, do que da existência d’Ele. Por isso também temos a possibilidade de respostas diametralmente opostas  para as perguntas que norteiam a toda humanidade, isto é, a possibilidade de negar Deus. Onde o homem não leva em conta Deus, falamos do ateísmo.

Ambas as possibilidades  merecem uma reflexão própria. A religião e o ateísmo, a fé e descrença existem,  hoje, lado ao lado em quase todos os campos da vida. Quando freqüentemente podemos ouvir que é cada vez mais difícil atualmente crer, os ateístas de convicção, como por exemplo o marxista tcheco Gardavsky, anunciam que hoje “sem dúvida é mais difícil ser ateísta do que antigamente” (Deus não morreu completamente). 

Cuidado com os juízos

No século II, como escreve São Justino, um dos grandes escritores da Igreja daquele tempo, suspeitava-se que os cristãos eram ateus.  (São Justino, Apologia prima. 6.1 Migne, PG VI). Pensava se assim, porque eles rejeitavam as concepções de Deus, que eram vigentes  naquela época. Isto deve servir de aviso também para nós, para não chamar levianamente as pessoas de ateístas.  A linha de separação entre a fé e descrença nem sempre fica bem definida. Muitos daqueles que se consideram ateístas, acreditam em alguma realidade fora da nossa  vida terrestre, embora chamam ela com o outro nome. 

Outros, não são  propriamente  ateístas,  mas sim,  pessoas que  “buscam”  as respostas.  Como é freqüente ouvir: “Gostaria de acreditar em Deus, mas não consigo. Não é que estou  decididamente convicto, mas ao contrario, falta-me convicção”. Uma pessoa assim não pode ser chamada de “ateísta”. Alguém que tem dúvidas e procura respostas não pode ser considerado descrente. Talvez ele até esteja intimamente mais perto de Deus do que alguém que diz que pertence a alguma Igreja, baseando se apenas  no certificado do Batismo.(...)

 (KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p.43-44)*
_____________________
*Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

*********************

sábado, 21 de janeiro de 2012

Um novo olhar para a vida


Hoje fala se muito do relativismo. Alguns até consideram a época atual como a época do relativismo, porque o homem passou a relativizar tudo.  Na minha opinião,  isso é a conseqüência do sentimento de liberdade e  de prepotência do ser humano, quando ele põe em dúvida todos os valores éticos e morais,  empolgado com o progresso e as conquistas incríveis dos  últimos tempos,  julgando-se o senhor do próprio destino, da vida e da morte. Pobre do homem: de um extremo (sujeição e escravidão) cai no outro (arrogância e prepotência)!

Em relação a tudo que é material e temporário o relativismo até tem sentido, pois ajuda ao homem a reconhecer que nada neste mundo vale mais que a sua vida (quando, é claro, não considera a sua vida equivalente a uma coisa qualquer). Mas não é assim em relação a Deus.  Quando se relativiza absolutamente tudo, inclusive a Deus,  a pobre criatura do homem tenta ocupar o lugar d’Ele. Uma tentativa  ignorante e tola, predestinada a trazer unicamente as frustrações e derrotas.

No entanto, quando o ser humano humildemente reconhece as suas condições de criatura e abraça o convite de Deus para construir um mundo digno e fraterno  –  ele reconhece  que Deus tem o valor máximo.  Logo também, apesar de poder  parecer um paradoxo,  tudo que é criação, e a própria humanidade,  também se tornam de grande valor.  “Tudo que não é eterno é eternamente inútil!” – este slogan torna se, aqui,  expressivo.  Assim,  reconhecemos que toda a criação  está abaixo de Deus, e só Ele é eterno.  Relativo torna-se tudo que não é eterno, e mesmo assim,  adquirindo um novo e profundo sentido.

Para o homem que crê em Deus, a fé torna-se uma fonte de renovação, de missão e de energia positiva, e não de comodismo e apatia. O seu olhar para a vida e para o ser humano torna se renovado.

Surge uma nova pergunta: será que o mundo de hoje ostenta tanta injustiça e barbaridades não por causa do comodismo dos que acreditam em Deus?  Ou, talvez, porque a nossa fé é muito fraca, superficial e pouco autêntica? Precisamos pensar sobre isso.
WCejnog

O texto abaixo completa a nossa reflexão:



(9)

(...) A imagem que nós temos de Deus influencia a nossa visão sobre nós mesmos. (...) Se reconhecemos Deus como o objetivo da nossa vida, como uma misteriosa base, então todos  os detalhes  da nossa vida vão receber o sentido mais profundo. Conheceremos melhor para que  vivemos,  compreenderemos com mais profundidade quem somos. 

Como conseqüência  da fé em Deus modifica-se também o sentido da existência terrestre do ser humano. Tudo assume uma nova posição na hierarquia dos valores.  Algo que é finito não poderá continuar para o homem crente como algo “o mais importante nesta vida”. Da posição da fé em Deus estão também esclarecidos alguns enigmas da nossa vida. É claro que para o homem  crente muitas questões ainda permanecerão ocultas, no entanto,  poderá conquistar novas forças para  superar as dificuldades que a vida lhe traz.

Não é verdade que a fé verdadeira coloca o homem contra si mesmo e contra o mundo. Ao contrário, é graças à fé que ele procura se posicionar positivamente em relação a tudo o que o cotidiano lhe traz.

(KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p. 39-40)*

Continua...
______________________
*Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

************************

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Como o homem imagina Deus?

Não há dúvidas de que todos nós temos na nossa mente (ou estamos continuamente construindo) uma imagem de Deus. Às vezes estamos tão certos de que sabemos ou conhecemos Deus, que somos prontos refutar qualquer dúvida ou questionamento.  No entanto, existem perguntas que podem mexer, e muito, com as nossas ‘imagens’ e ideias  de Deus,  que temos  dentro da nossa mente e na nossa imaginação.  Não se trata , neste caso,  de duvidar da fé em Deus, mas da imagem de Deus que formamos e cultivamos na nossa imaginação.  São as coisas diferentes.

Acredito que cada um de nós pode e deve  perguntar a si mesmo:  Qual é a imagem de Deus que tenho?  Como imagino Deus?  Será  que é uma imagem confiável e se aproxima do Deus Verdadeiro, ou mais parece alguma caricatura que pouco ou nada tem com Ele?   As  respostas  para  essas perguntas só podemos conhecer  na  medida que  realmente conseguimos entender  quem é Deus Verdadeiro, aprofundando bastante esse assunto. Quando fazemos isso, muito provavelmente se  tornará necessário  modificar as imagens falsas ou  grotescas de Deus, que temos na nossa mente. Com isso,  também a nossa fé em Deus estará mais forte. Ela  estará livre de superstições e falsas imagens  e nos colocará muito mais perto d’Ele.

WCejnog

O texto abaixo trata deste tema:


(8)
 
(...) O ser humano não tem como conhecer como realmente é Deus somente com as suas próprias forças. Por isso também existe uma grande quantidade de opiniões e afirmativas errôneas,  inadequadas ou mesmo más sobre Ele.  Elas escurecem e dificultam para o homem olhar para Deus. Talvez alguns ateus de propósito  ajudam a construir alguns conceitos sobre Deus que realmente são inaceitáveis para uma mente lúcida e crítica.

Muitas pessoas também, na verdade,  não rejeitam Deus, mas as suas caricaturas. Elas ficam escandalizadas com as imagens deformadas de Deus. Deus, porém, é independente das imaginações e conceitos que nós temos sobre Ele.

Quando o morador primitivo das matas começa a duvidar em seus deuses feitos de madeira, e finalmente deixa de acreditar neles, isto não significa que Deus não existe, mas apenas que Deus não é de madeira.

Nenhuma palavra é tão freqüentemente usada e tão abusada, como palavra “Deus’.  O que não se descrevia com ela, o que não se fazia em nome d’Ele!  “Cremos em Deus” – escreveram nas notas do dólar. Nos cintos dos soldados alemães nazistas estava escrito: “Deus conosco”.
M. Buber:  “A palavra  ‘Deus’ é uma das palavras que mais sofre por abuso. Nenhuma, até agora, foi tão difamada e rasgada. Os homens matavam e morriam por esta palavra. Mostram bobagens escrevendo embaixo "Deus”, matam-se e assassinam-se mutuamente dizendo 'em nome de Deus’.” (Autobiographische Dokumente).

É possível encontrar as pessoas que parecem saber exatamente tudo sobre Deus, como se fossem conectadas  diretamente com  Ele. Na realidade,  “a Deus nunca ninguém viu” (Jo 1, 18).

É muito conhecido o conceito de Deus como um homem velho, querido, com barba, Deus que em algum lugar lá, acima das nuvens, “no céu”, sentado no trono. Essa ideia de Deus é baseada na antiga  visão do mundo, que também constitui  a base das concepções bíblicas. Até o dia de hoje a palavra “céu” é usada  erradamente tanto para descrever o firmamento, como também para falar do que é divino. É conhecida a exclamação do cosmonauta russo Gagarin: “Chegamos ao céu e em nenhum lugar encontramos Deus”.  Deus, porém, não está ligado ao tempo e ao espaço, como p. ex. nós. Em nenhum lugar está erguido o trono de Deus, pelo menos do outro lado da “Via Lactea”.   O “céu” não é o lugar de morar, mas é o “estado”.

Outras pessoas pensam que Deus nunca pode dizer “não”.  Imaginam Deus como um parceiro ou sócio,  com quem se faz o contrato, ou com quem se realiza as trocas. Pensam que Ele existe somente para ouvir as suas orações – como se fosse num Caixa de Auto-atendimento: depois de cada oração Deus é obrigado ouvi-la e satisfazer o pedido.  Assim, Deus fica reduzido a um auxiliar do homem. Certamente, não poderá se evitar a grande decepção. A conseqüência disso:  “agora eu não consigo mais crer em Deus!”

Para outras pessoas,  Deus é uma espécie de “policial celeste”, que deveria cuidar da ordem no mundo. Quando crianças, talvez quando aprontavam alguma  má criação, ou quando durante a  tempestade caíam os raios – ouviam dos adultos: “Deus castiga”. Agora, como adultos, ficam com raiva d’Ele, porque permite que exista no mundo tanta desordem e injustiça. Alguns conservam  esse medo de Deus durante toda a sua vida. Imaginam que Deus, com uma terrível exatidão, está anotando cada falha do homem, cada ‘mancada’. Ele faz isso para nos controlar e, no final, apresentar para nós as contas. Como é  pequeno e medíocre um Deus assim..!

Muitas pessoas entendem que Deus é alguém que corrige o percurso do mundo. Como tal deveria intervir quando necessário, servindo-se até de milagre. Esquecem que Deus confiou ao ser humano toda a criação. O mundo tem a sua independência e as suas leis, que nenhum “Deus dos milagres” viola de repente só para satisfazer os desejos humanos. Hoje sabemos muito bem que não é Deus que acumula as nuvens de tempestade e não é Ele que joga em cima dos homens os raios, mas isso tudo acontece seguindo as condições naturais da natureza. Não nos é permitido fazer de Deus um “tampa-buraco”, que serve como explicação em tudo, onde ainda o homem – na sua limitação – não consegue ter uma explicação completa. O homem primitivo adorava as forças da natureza como divindades: o sol, a fertilidade... Hoje, o homem dominou essas forças em grande escala e as administra. Por isso acha que pode dispensar a fé em Deus. Na verdade, o ser humano deveria imaginar que Deus é muito maior. Não devemos procurar Deus dentro das forças da natureza, mas temos que procurá-lo como quem que está além dessas forças, como Aquele que é causa da sua existência.

Por outro lado, Deus não é alguém “totalmente distante”, alguém que honrosamente  se retirou do mundo. Ele não é “pré-mestre”, que no ato da criação fez funcionar todo o mecanismo da natureza, e depois deixou o mundo e a humanidade à sua própria sorte.

Uma moça perdeu no acidente de trânsito o seu namorado, a quem amava. Perguntou ao tio se Deus não se interessa com o seu sentimento. Esse respondeu que Deus está ocupado com outras coisas. Então a moça respondeu: “Se Deus não se interessa comigo, então eu também não vou mais me interessar com Ele”.
Isso não está certo. Deus existe dentro do ser humano e O encontramos  em tudo. Ele constitui a mais profunda base de todas as perguntas humanas. À luz da fé cristã, Ele se apresenta para nós como “nosso Pai”.

Resumindo, podemos dizer: quanto menor e mais pobre imagem o homem tem sobre si mesmo e sobre o mundo, tanto menor e mais pobre imagem ele cria sobre Deus. Não surpreende hoje, portanto, no tempo de desenvolvimento das ciências naturais e da sociedade, que uma concepção de Deus descrita acima  é questionada.  Apesar disso, os choques desse tipo são muito úteis, porque nos obrigam a revisar e modificar a nossa imagem que fazemos de Deus. 

Para o homem de hoje, que está a par das ciências, Deus, de jeito nenhum, tornou-se dispensável. Ao contrário, nesse cenário Deus torna-se maior.

No século II, como informa um dos grandes escritores da Igreja daquele tempo, suspeitava-se que os cristãos eram ateus. Esse escritor respondeu a isso: “Confessamos também que somos ateus, mas ateus em relação a todos os supostos deuses” (São Justino, Apologia prima. 6.1 Migne, PG VI).
Para nós esse é um fato interessante, porque mostra que já naquela época, no início do cristianismo, a fé dos cristãos se diferenciava claramente dos conceitos comuns sobre Deus, e por isso sobre eles caía suspeita que não tinham fé.  Porque, na realidade, como conseqüência da fé cristã - as forças da natureza consideradas como “deuses”, foram retiradas dos seus tronos. (...)

 (KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p.37-39)*

Continua...

__________________________ 

Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

**************************

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Podemos saber tudo sobre Deus?

É mais uma questão que nem sempre fica bem esclarecida para nós. Principalmente, porque poucas vezes nos debruçamos sobre ela para fazer uma boa reflexão e procurar uma resposta suficiente.  E depois, quem crê em Deus tem, muitas vezes, uma sensação de que  ‘sabe’ muito (ou ‘quase’ tudo) sobre Ele;  e quem não acredita – esse  ou  não quer saber, ou  sustenta que é impossível saber qualquer coisa sobre Deus, e – então – é melhor nem ‘esquentar a cabeça’.

Podemos saber tudo sobre Deus?  É obvio que qualquer pessoa vai responder que não, que não é possível.  Nunca poderemos saber tudo sobre Deus. E menos ainda saber como Deus é. Somos criaturas, mesmo que as mais inteligentes neste mundo – somos criaturas e limitadas. Quem pensa que podemos saber bastante – é muito iludido. Podemos saber sobre Deus alguma coisa:  “sentir” a sua presença, descobrir os seus “rastros”  no universo, na natureza e nas condições da nossa existência humana - na medida em que os nosso sentidos  e a razão nos permitem.   Podemos saber bastante sobre a vontade e o Projeto de Deus, porque a nossa leitura  do mundo que nos cerca e das nossas ânsias  pode ser feita, agora,  à luz da revelação que  veio através de Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, que foi morto na cruz e ressuscitou,  é fundamental  e diz respeito a toda a humanidade.  Ele veio  a nós e falou a “nossa”  língua, nos deu mais informações e detalhes, o suficiente para ter a certeza de que precisamos  ‘caminhar’ nesta  vida com Deus, realizando a sua vontade e o seu projeto, e um dia teremos com Ele um encontro definitivo.  E isso é tudo que sabemos sobre a vontade de Deus,  através dos nossos conceitos humanos  (não temos outros). No entanto, não sabemos nada (ou quase nada) sobre como Deus é - não Deus da nossa imaginação e dos nossos conceitos, mas Deus Verdadeiro.  Por isso, a única atitude correta do ser humano diante de Deus deveria ser a humildade.

Uma vez Jesus disse:  “A Deus ninguém nunca viu. O Filho Unigênito que está no seio do Pai foi quem no-lo deu a conhecer” (Jo 1,18).   Jesus nos revelou quem é  Deus   por meio da sua humanidade e nos fala do Pai e do Espírito Santo (Jesus  nos fala  como quem vive entre nós e fala nossa língua). Só assim foi possível  a comunicação. O que importa para nós, na verdade, é saber a outra coisa sobre a qual  o apóstolo João  refletira muito, e depois deixou por escrito na sua carta:   “A caridade procede de Deus e quem ama nasce de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 Jo 4, 7b-8).  E como conseqüência disso é justamente um novo sentido da vida humana:  “Considerai com que amor nos  amou o Pai, para sermos chamados filhos de Deus. E de fato o somos” (1 Jo 3,1).

Precisamos, às vezes, “parar”  talvez um pouco mais,  para pensar sobre isso...                          É fundamental para a nossa vida.
WCejnog

O texto embaixo ajuda-nos na reflexão sobre este tema:



(7)

(...) Podemos saber tudo sobre Deus?  De jeito nenhum. Simplesmente tomamos conhecimento que alguém como Ele deve existir, mas não é possível  compreendê-lo. Deus supera toda a imaginação humana. Sim, é mais fácil dizer o que Ele não é, do que o que é.  Por isso, hoje,  alguns sugerem para não falar nada sobre Ele. Mas, não seria isso um grande  desentendimento? Não significaria reconhecê-lo sem importância? Nós, humanos, estamos interessados exatamente em tudo o que ainda é desconhecido ou pouco explorado.Ou devemos nos ocupar somente com as verdades banais, sem significado?

Pensando bem, quando falamos de Deus deveríamos ‘perder a voz’. Sabia disso a velha teologia,  quando dizia que sobre Deus podemos formular somente opiniões negativas: tudo o que é humano e imperfeito tem que ser estranho para Ele. Assim, chegamos a dizer:  Deus é ilimitado, infinito, inconcebível, insondável. – Por outro lado, essa teologia mostrou sobre Deus  tudo que para nós parece perfeito  e no grau superlativo: Deus é todo-poderoso, todo-ciente, todo-presente...   Aqui se deduz sobre o Criador pelas criaturas, porque Ele próprio há de possuir em perfeição tudo isso, o que nos foi dado.

Mas,  será que isso não é apenas  uma tentativa de falar de Deus através das imaginações do ser humano?  Bem, isso só  tem valor quando temos consciência de que as nossas especulações e conclusões sobre Deus são insuficientes. É verdade que aplicamos aqui os conceitos humanos, mas, infelizmente, não dispomos de outros. E mais, nisso tudo  temos que saber que todas as nossas idéias sobre Deus  contêm mais dissimilaridade do que similaridade que pode existir entre Deus e homem (analogia). Apesar de tudo, essas opiniões não são falsas, porque apontam na direção certa, mesmo se não abrangem toda a realidade divina. Deus sempre ainda continuará diferente daquele que toda a nossa sabedoria humana poderia  imaginar. Ele continuará mistério insondável. Atrás de cada nome que lhe atribuimos, Deus ao mesmo tempo se manifesta e se esconde.

Por isso a Bíblia se serve, com simplicidade, de um número muito grande das mais impressionantes imagens para dizer sobre Deus algo, que nunca conseguiríamos conhecer com a nossa razão. Muitos desses quadros e imagens tem características humanas, por exemplo, quando disseram que Deus tem coração, que pensa sobre nós, que alguma coisa O entristece, que está irado, que cuida de nós, etc. Essas expressões, já de antemão, supõem que devem ser entendidos como mistério. Os autores bíblicos sabem que os conceitos e ideias desse tipo são apenas meios auxiliares. Eles apenas apontam para Deus, que continua em si e sempre será insondável.  Aqui não se trata, de jeito nenhum, da imagem infantil e ingênua de Deus. Trata-se aqui mais da expressão, conceitos  e ideias, que nos querem tornar Deus mais próximo. (...)

(KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p.36-37)*

Continua...
______________________
*Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

************************

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Nos limites da vida


Onde podemos encontrar Deus?  

Imagino que quem já enfrentou na vida algum grande sofrimento ou perda, certamente  modificou muitos pontos da sua visão sobre a vida e sobre os valores que o mundo ostenta. O ser humano nunca se apercebe tão indefeso e fraco, e  sobretudo  tão  “pequeno”, do que no momento quando toma consciência da fragilidade da sua vida.  Não pensamos sobre isso, mas o risco de morte nos acompanha constantemente, desde o momento em que fomos concebidos. 

Na verdade, não sabemos se estaremos vivos daqui  a pouco... É  um bom motivo para  alimentar constantemente, no nosso íntimo, uma sincera gratidão pela vida!  Porque as coisas sempre costumam ‘acontecer’ com os outros (e acontecem a cada segundo, a cada dia, sem parar!) e nós estamos apenas ‘assistindo’...  Mas quando o sofrimento ou alguma ‘desgraça’, ou morte atinge alguém mais próximo de nós, ai  começamos cair em prantos.  Mais ainda quando a infelicidade, ou doença, ou a própria morte começa a esbarrar em nós...  Uma coisa é falar, discutir e imaginar (quanta besteira o homem fala nessa fase!), e outra é sofrer, vivenciar, morrer... 

Imagino que num momento assim provavelmente deve cair cada máscara de arrogância,  prepotência e egoísmo humano.  O homem estará a sós,  com o seu medo e ignorância, diante do mistério da sua vida.  

Será que podemos ter dúvidas que nos momentos-limites  o ser humano encontra  Deus?

                                                                    WCejnog

O texto abaixo aprofunda mais  esta reflexão:
(6)

(...)  Deus deixa-se encontrar dentro da nossa vida. Podemos encontrá-lo em todo lugar. Também em situações limite: sofrimento, solidão, tragédias e na morte – podemos encontrá-lo.

Uma picada de mosquito – infecção de sangue. Já não foi possível salvar essa pessoa. E aconteceu isso justamente no momento quando conseguiu praticamente tudo para ter tranqüila a sua existência. Nesses momentos todos os outros que  continuam vivos, sentem que o ser humano é sujeito a algum poder infinito.

A morte questiona na própria base o sentido da vida humana. Tentamos não pensar nisso e conseguimos esquecer,  até um certo ponto, mas não definitivamente. No final, há momento em que o ser humano chega ao limite, que significa a negação de todas as suas experiências e projetos. Ele tenta-se defender o máximo que pode com toda a sua sabedoria e esperança. No íntimo do seu coração  praticamente consegue vencer essa batalha, chegando a afirmar: “Isto não é o fim. Com certeza, não pode me esperar apenas um ‘nada’. O que eu vejo e o que vivenciei e experimentei  nesses 20 ou 80 anos da minha vida, isso não é tudo. O caminho prossegue!”.   

Será que o homem poderia tremer assim diante do “nada” como treme diante da morte?   A dor  desferida pela morte seria incompreensível, se não existisse em nós alguma coisa imortal, que protesta contra um fim deste tipo. Existe em nós uma força que não quer saber de nenhuma fronteira e que se revolta contra um limite, que é a morte. Onde fica a fonte dessa força?

Também o homem ateu admite freqüentemente alguma insondável realidade e poder, que transcende a sua vida. Essa realidade não parece “jogada  no mundo”,  como ele mesmo, mas se mostra como algo que manda, envia e governa.  Então, ele fala do  “destino”.  Mas o que pode ser esse “destino”? 
– Uma pessoa crente não enxerga fora da vida humana só alguma força cega, uma potência anônima, mas vê nisso um ser pessoal. Caso contrário, como poderiam ser realizadas nossas esperanças e expectativas pessoais como confiança e amor? Esse ser pessoal se chama Deus. (...)

 (KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p. 35-36)*
Continua...
______________________________________________________

 *Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.


***************************

domingo, 15 de janeiro de 2012

A consciência - esse “Grilo Falante”!


Onde posso encontrar Deus?   Continuo a pensar sobre esta questão.

Uma das coisas mais intrigantes no ser humano é a existência da voz da consciência. É como se fosse uma sombra  que o acompanha durante a vida inteira. Esse fato, de ser tão misterioso e evidente ao mesmo tempo, também aponta na direção de Deus.  Pode significar, para muitos, que em cada ser humano  Deus está presente como Juiz Supremo, como  uma Autoridade acima de tudo e de qualquer outra instância, mesmo quando se trata da existência e da autonomia humana.

É evidente que  a consciência de cada um de nós tem suas diferenças, pois na vida humana existem vários  fatores que deixam a sua influência.  Mas uma coisa é  certa: cada ser humano se depara com ela!   Quer queiramos  ou não,  todos estamos acompanhados de perto, atrás da orelha, pelo nosso sempre fiel amigo, o “Grilo Falante”, como o Pinóquio da literatura infantil.

É ela que tem poder de colocar-nos  diante de um tribunal independente, que nos julga.  E não temos como evitá-lo.  Será que isso não indica que atrás da nossa consciência está  presente Alguém muito maior?
Cada um de nós deveria refletir sobre isso.

                                                                                       WCejnog

O texto abaixo é muito útil para  aprofundar essa reflexão:

(5)

(...) Além do desejo de amor e de ser feliz, também existe no ser humano  o outro desejo: o desejo de ser bom. O homem  sabe perfeitamente que não pode querer só para si tudo que ama, toda a felicidade – às vezes até às custas dos outros.  Aqui  torna se presente uma força reguladora – é a consciência.

Tentou-se explicar a existência da consciência com o medo da opinião pública, da punição, ou, então, atribuía-se a existência da consciência à educação, à influência do ambiente ou ao fator hereditário. Isso tudo, sem dúvida, influencia na formação da consciência, e por isso fica compreensível   que  o juízo sobre o tema do bem e do mal não é totalmente igual em todos os indivíduos e nações. Todos, no entanto,concordam que existe diferença entre o bem e o mal, e que o homem pode se tornar culpado quando faz o mal.

Em cada um de nós existe a consciência de que o homem deve ser bom. Até mesmo quando ninguém nos vê nem sabe do mal que fizemos, e quando nós mesmos não somos diretamente atingidos com isso, mesmo assim ficamos sentindo-nos responsáveis.

Caso contrário, porque o transgressor (ou alguém culpado)  estaria fugindo apesar de não ser procurado por ninguém? Depois de cometer um ato mal, submergem as “acusações da consciência”, nasce a consciência da culpa, e também o arrependimento. Na voz da consciência o ser humano ouve um incondicional “pare”, e descobre uma justiça absoluta, uma sentença impassível à manipulação, que mesmo que é para ele inconfortável, não “desgruda” dele.

E mais, essa voz é tão forte, que nas situações extremas as pessoas entregam até a sua própria vida para não transgredir o bem e não cometer o  mal. Aqui fica evidente que na voz da consciência o homem experimenta e descobre que não é ele o juiz da própria causa – porque como poderia julgar as suas próprias inclinações?

Até mesmo supor que  existe alguma autoridade impessoal não seria suficiente para explicar o fato da consciência. Por quê? Porque o homem livre e confiante em si cederia por acaso diante de um veredito desse, se não ouvisse nele a voz de um juiz absoluto? Quando nos sentimos responsáveis, quando temos o sentimento de culpa ou vergonha, isso pressupõe que existe alguém, diante do qual somos responsáveis e nos colocamos envergonhados e culpados.

Apenas “algo” impessoal não conseguiria mexer tanto com as nossas emoções. Não sentimos vergonha diante de uma pedra ou animal, mas somente diante de uma  pessoa.

Novamente, atrás da voz de consciência existe uma vontade absoluta, diante dela não se pode fugir. Em nossa vontade de sermos bons, nós, seres humanos, sentimos esse infinito “bem”, que é  alguém -  o BEM infinito.  É Ele que se coloca no meio da nossa vida, contra nós, na voz da consciência. (...)
 (KRENZER, F. Taka jest nasza wiara, Paris,  Éditions Du Dialogue, 1981, p.34-35)*

Continua...
_____________________
*Obs.:Para embasar as minhas pequenas reflexões (simples, diretas e questionadoras) acerca de perguntas que, suponho, perturbam a todos nós, sirvo-me  do  livro do Ferdinand Krenzer- “Morgen wird man wieder Glauben”  e,  usando aqui uma edição desse livro no idioma polonês (Taka jest nasza wiara), faço uma tradução livre (para o português) apontando  alguns trechos, muito bem elaborados pelo autor. É um prazer seguir o seu pensamento.

******************