São conhecidas as palavras de São
Leão Magno, papa e doutor da Igreja, que viveu no século V, que até hoje soam (e,
talvez, hoje mais que nunca, deveriam soar) nos ouvidos e na “alma” de todos os
cristãos, de todos nós que dizemos acreditar em Jesus Cristo, considerando-nos
seus adeptos e discípulos.
Esse papa disse: “Toma consciência, ó cristão, da tua
dignidade. E já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de
antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra-te de que Cabeça e
de que corpo és membro. Recorda-te que foste arrancado do poder das trevas e
levado para o Reino de Deus. Pelo sacramento do batismo, te tornaste templo do
Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob
o jugo do demônio, porque o preço da tua salvação é o sangue de Cristo”
.
Olhando para a história do ser humano neste mundo
e pensando que já se passaram mais que dois mil anos da morte e ressurreição de
Cristo, e do Pentecostes, constatamos que o mundo ainda está muito longe de ser
conforme o projeto de Deus. Aliás, o mundo parece caminhar pelos caminhos que
se afastam do Evangelho: as desigualdades entre classes sociais, países e continentes;
a pobreza e miséria absoluta de milhões de seres humanos; as injustiças, a corrupção, o consumismo
desenfreado, o hedonismo, o materialismo, o egoísmo, as legislações que permitem
e optam por algumas práticas que atentam contra a vida e ostensivamente
desafiam as leis de Deus e até o próprio bom senso, etc. O ser humano chega a
desafiar Deus, querendo ocupar o seu lugar.
É neste mundo, nós cristãos, somos uma parcela considerável (cerca de 2 bilhões, 1/3 da humanidade). A pergunta é: Como isso é possível? Será que não nos importa o projeto de Deus? [“Deus viu tudo o que havia feito e era muito bom” (Gn 1, 31)]. Parece que hoje esta tarefa (missão) dos cristãos [“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15-20)], fica só nas palavras, porque na prática somos muitas vezes covardes e egoístas. É medo de enfrentar “o mundo” e colocar-nos abertamente a favor de Cristo e do seu projeto. É medo de assumirmos esse projeto e o tornarmos nosso. Parece, que a nossa certeza da fé em Deus não é tão clara e certa assim, por isso a saída é ficar “em cima do muro”... Outras vezes, talvez, somos tão cegos e ignorantes, que não enxergamos a contradição e a incoerência das nossas palavras e ações em relação ao que o Evangelho diz.
Muitos dirão que não é bem assim.
Talvez contestem o que foi dito acima, argumentando que os cristãos fazem a
sua parte, que tem tanta gente rezando,
trabalhando e se sacrificando na luta em favor dos mais pobres e oprimidos, que
tantas obras são realizadas pelos cristãos, etc. Que são muitos católicos,
cristãos, e pessoas de boa vontade neste
mundo...
Ninguém pode negar que essas
coisas existem e são feitas. Porém, precisamos também reconhecer que isso tudo é pouco, é muito
pouco diante da dimensão da missão que
Cristo confiou aos que n’Ele acreditam e O querem seguir.
Talvez não falte palavras, livros,
homilias, sermões, reflexões – sobretudo da parte dos líderes e intelectuais
cristãos, e não falta também “blá, blá,
blá ...” da nossa parte, mas falta, principalmente, atitudes corajosas para enfrentar oficialmente e publicamente as
aberrações que o ser humano promove hoje na sociedade. Ao invés ficarmos acomodados e calados, deveríamos
contestar, reagir, argumentar, propondo o caminho do Evangelho, o caminho do maior mandamento, que é o mandamento do amor!
“Quem não
estiver comigo, está contra mim, e quem não recolher comigo, dispersa” (Lc 11,
23) – disse Jesus. E nós? Talvez não estejamos contestando essas coisas, porque também, na realidade, compartilhamos e
apoiamos tudo que o mundo oferece e “tomamos parte do seu partido”? O poder, o dinheiro, o conforto, o luxo, os
privilégios, o “curtir a vida” – hoje em dia – apossou-se de muitos cristãos,
que justificam isso tudo com: “os tempos mudaram”, ou, “o tempo hoje é
outro...”, etc. Será que a consciência cristã não está sofrendo hoje, na grande
escala, o processo de atrofia e alienação? Talvez ficou esquecido o
chamado: “Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade...”.
A fé individualista e intimista que
hoje muitos alimentam e propagam ostensivamente, inclusive também via Meios de
Comunicação, serve justamente – penso eu - como forma de “fazer as pazes” com o
mundo, e não precisar de se comprometer com a evangelização de verdade, que
visa o reino de Deus no mundo e na vida de toda a humanidade, como exige o
Evangelho. Não poderíamos chamar esse tipo de religiosidade e fé de “alienação”? Porque o importante, aqui, é “ser
feliz” e ter a “consciência tranqüila”! Mas, será que o cristianismo é isso mesmo?
Será?
A indagação principal que me inquieta
ao escrever esta reflexão, é a seguinte: Por que estamos esquecendo a mensagem
libertadora de Jesus Cristo? Por que não damos valor a ela? Porque não “saímos para as ruas do mundo”, para falar desta
mensagem sem medo, como aconteceu no Pentecostes? Ou, talvez, porque ainda não
tivemos o nosso Pentecostes?
Para
refletir um pouco mais sobre a
mensagem profunda e clara que Jesus Cristo deixou para os seus discípulos, para
a sua Igreja e para cada um de nós, que somos cristãos no mundo de hoje,
proponho trazer para INDAGAÇÕES algumas
reflexões, de autoria de Ferdinand Krenzer¹, que abordarão esse tema.
Para começar, o
texto abaixo fala do cristianismo e
mostra o por quê ele é muito especial. A
leitura é fácil.
Não deixe de ler.
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(1)
A mensagem de liberdade
A mensagem de liberdade
Qual é, realmente, a essência do
cristianismo? Certamente ela não tem nada a ver com vários conceitos errôneos,
que são popularmente divulgados, como, por exemplo, que o cristianismo é um
catálogo de regras (obrigações e proibições), onde muitas coisas temos que
fazer e tantas outras – não, quer dizer,
resume-se à moral. Ou, então, que o cristianismo significa piedade e rituais
religiosos. Tem gente também, que
gostaria de resumir a mensagem
cristã ao amor ao próximo e , com isso, considerá-lo, simplesmente, puro humanismo.
Quando, porém, prestarmos atenção
nas palavras do próprio Jesus Cristo, com as quais Ele descreve a finalidade da
sua vinda, encontraremos a definição
central do Novo Testamento: Ele deseja iniciar o “reinado de Deus” ou “construir
o reino de Deus”: “Completaram-se os
tempos, está próximo o reino de Deus, convertei-vos e crede no Evangelho.” (Mc
1,15)
Talvez, neste momento, o leitor
possa se sentir decepcionado. “Dominar”... – nós, hoje, associamos isso com o autoritarismo.
A história é nada mais que o surgimento e o desaparecimento de sucessivas
dominações de poderes e ditaduras. Justamente hoje a humanidade tenta
libertar-se disso. E a Igreja continua pregando a dominação, o reinado de Deus. Não seria isso o motivo, pelo qual os homens como
Sartre, Nietzsche, Marx, Feuerbach e outros, rejeitam Deus e a fé, porque isso
significa – para eles – tirar a liberdade do ser humano?
Mas não é assim que era entendida
essa expressão, “o domínio de Deus”, pelos judeus dos tempos antigos, e com
isso também, por Jesus Cristo. Eles entendiam esse termo do jeito totalmente
diferente. Para eles o temos “domínio” era ligado estreitamente com a idéia de
justiça, paz, ajuda e com a defesa dos fracos e oprimidos. Onde Deus “domina”,
ali se trata de combater a desgraça e a infelicidade, vencer o mal, querer um
mundo melhor.
E já que Deus não quer mudar nem o mundo e nem o homem contra a
vontade dele, Jesus Cristo veio a este mundo não como dominador e ditador, mas
como o homem – com toda a sua fragilidade, como servo (Flp 2, 6-8). E esta é a
forma de “domínio” de Deus.
Ademais, nós humanos, somos
convidados para participar desse domínio de Deus, isto é, do reinado de Deus
(Rm 5, 17). Então, não somos reduzidos ao escravo e nem ao servo. O domínio de Deus consiste em imbuir tudo neste
mundo com o seu amor. Até mesmo para a existência humana o amor significa
libertação da solidão, do isolamento e, com isso, do absurdo e da falta
de sentido da vida. O domínio de Deus, portanto, não nos algema, mas liberta o homem dele mesmo e
lhe dá o sentido.
São Paulo, no lugar de domínio de Deus aplica a expressão “a justiça de Deus”. Porque a justiça é a
base e fundamento do amor. São João,por
sua vez, resume tudo o que Cristo trouxe na palavra “Vida”, a”nova Vida”. Hoje
em dia, freqüentemente - e com toda
razão – expressamos todas as palavras e
feitos de Jesus Cristo usando o termo “shalom”² (em hebraico שָׁלוֹם) , o que significa
paz. Podemos dizer que para nós, hoje, o que melhor reflete a expressão “domínio de Deus” - é o termo “libertação”. Todos esses conceitos
podem ser encontrados na Bíblia.
É fácil notar que até a Bíblia procura sempre novos termos para
expressar o que Deus quer nos oferecer em Jesus Cristo. Nenhuma dessas palavras
conseguiu fazê-lo. Por isso é justo que em várias épocas
com mais força falem diferentes aspectos da mensagem de Cristo.
Paz, liberdade, justiça, amor,
vida - será que não é isso que desejamos todos nós? Não será a
saudade por esses valores que nos move
para modificar as coisas, demolir o que
há de errado e construir o novo? Não importa se tentamos alcançar isso
procurando terapias que rejuvenescem,
ciência e técnica ou, então, através de mudanças sociais – sempre se trata do
mesmo objetivo: da vida que tem valor, que vale a pena viver.
KRENZER,
F. Taka jest nasza wiara, Paris,
Éditions Du Dialogue, 1981, p. 113-114).³
Continua...
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¹ Krenzer Ferdinand
- nascido em 22 de maio de 1921 em Dillenburg,
Hesse, † 08 de maio de 2012 em Hofheim (Taunus),
foi um teólogo católico alemão,
sacerdote e escritor na aposentadoria.
² Shalom
(em hebraico שָׁלוֹם) significa paz entre duas entidades (geralmente duas
nações) ou a paz interior de um indivíduo. "Shalom/Salom"
é a palavra no Antigo Testamento que descreve, melhor que qualquer outro termo, a compreensão
hebraica da saúde total.
Shalom" e outras palavras
relacionadas, tais como "Shalem", "Shelem" e suas derivadas
estão entre os mais importantes termos teológicos do Antigo Testamento.
Desejar "Shalom" a
alguém implicava numa bênção (2 Sam. 15:27); não desejar "Shalom"
implicava o oposto, uma maldição (1 Reis 2:6). Da mesma forma como hoje
cumprimentamos as pessoas com bom dia, boa tarde ou boa noite.
Para o hebreu, a saudação
"Shalom" implicava integralidade, totalidade, e um desejo de que os
que estavam sendo saudados tivessem saúde física e os recursos espirituais para
preencher as suas necessidades.
3
Obs.: As reflexões do Ferdinand Krenzer fascinam pelo seu jeito simples
e direto, e agradam o leitor, ajudando-o a entender melhor o caminho da fé
cristã e compreender os temas mais difíceis desta doutrina.
Os textos publicados neste blog são
tomados do livro Taka jest nasza wiara, desse autor; uma edição no idioma
polonês, do qual faço uma tradução livre (para o português). O título original: “Morgen wird man wieder
Glauben”.
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